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Por que é tão problemática a forma como tratam estupros na dramaturgia?

Publicado 28 Nov 2017 – 04:00 AM EST | Atualizado 15 Mar 2018 – 01:11 PM EDT
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Todo grande personagem da ficção tem uma história forte que o constrói. Já vimos todo tipo de trama compor os mais diversos tipos de heróis e vilões marcantes nas telonas ou na TV. O que não vemos é uma variedade na formação da personagem feminina, que vira alvo de um artifício perigoso e clichê da indústria cinematográfica.

A narrativa do estupro é um recurso muito comum para construir personagens femininas - ao menos aquelas que precisam ter papel maior. Quando uma mulher precisa mostrar que é forte ou que tem seus motivos para se vingar ou agir de maneira duvidosa na narrativa, ter sofrido um abuso sexual é o meio mais rápido de convencer o público.

A pesquisadora da Universidade de Boston nos Estados Unidos, Lisa Cuklanz, analisou produções para TV entre as décadas de 1970 e 1990 para mostrar como a “fórmula do estupro” foi utilizada diversas vezes, com os mais variados fins – da autoafirmação do protagonista homem à motivação das personagens femininas.

“Essa fórmula mudou ao longo dos últimos anos e passou a fazer parte de muitos gêneros da ficção, quando no passado era mais comum em programas policiais”, disse a autora do estudo “Rape on Prime Time” em entrevista ao VIX.

Claro que a liberdade criativa é fundamental, mas quando um recurso em particular (e que é sensível na vida de muitas mulheres) passa a ser usado de forma tão repetitiva carrega uma mensagem que merece muita atenção.

Por que o estupro parece ser o único motivo suficiente para tornar uma personagem especial?

Estupro retratado na cultura pop

Mulheres heroínas

É comum que a violência e a injustiça sejam motes para a reviravolta de qualquer tipo de personagem. Boa parte dos heróis da ficção tem um passado trágico, que os impulsiona e dá força. Batman, O Doutor de “Doctor Who”, John Locke em “Lost”, Harry Potter, Roarscharch em “Watchmen” e tantos outras figuras queridas da cultura pop têm histórias terríveis de abandono, assassinatos, vinganças e uma enorme gama de tramas violentas e traumáticas.

Por outro lado, se olharmos para as heroínas, não é difícil perceber que a violência está quase associada ao estupro e abuso sexual. Não é a perda de pessoas amadas, o abandono, a criminalidade ou traumas familiares que tornam mulheres heroínas, mas, sim, o estupro.

“Quando uma mulher supera o ato mais hediondo que poderia acontecer com ela, ganha automaticamente poderes na mente de um homem”, explica Gabriela Franco, jornalista, roteirista e cineasta pela Academia Internacional de Cinema.

Isso acontece, por exemplo, em “Game of Thrones”, com personagens como Sansa e Daenerys (que têm as maiores reviravoltas na história), e em “Jessica Jones”, com uma heroína traumatizada pelo abuso do vilão. E essa também é a realidade de Mellie, em “Scandal”, de Charlotte, em “Private Practice”, e de tantas outras personagens famosas da televisão e do cinema.

Problema de usar o estupro na construção da personagem feminina

“É muito sexista que a mulher precise provar desse jeito que é capaz de qualquer coisa”, pontua Gabriela. Expor de forma tão recorrente cenas de mulheres em situações degradantes e humilhantes como a única maneira – ou pelo menos a mais eficaz – de torná-la convincente é um problema.

“Como toda mídia com grande poder de entrar no imaginário coletivo, o cinema é um veículo forte, que usa a liberdade criativa para disseminar todo tipo de mensagens – o problema é quando elas se tornam padronizadas, como a violência contra a mulher”, ressalta Gabriela.

Estupro para reafirmar o papel do homem

Vale ressaltar também que a “narrativa do estupro” quer dizer muito mais sobre os homens envolvidos naquela ação do que necessariamente à mulher que o sofreu. “Historicamente, um dos principais objetivos sempre foi diferenciar os papeis masculinos. Basicamente: o homem bom contra o homem mau”, explica Lisa Cuklanz.

Isto é: enquanto o homem mau é abusador, o homem bom é o salvador da vítima, compreensivo, atencioso, responsável por transmitir ao público a ideia do que é certo e, por fim, o justiceiro. “Quando não atua como salvador mesmo, acaba sendo o vingador, que pune o mau de alguma forma, como se a mulher precisasse disso, independente das necessidades ou desejos dela”, completa Gabriela.

E o abuso são precisa aparecer em forma de estupro para mostrar a diferença entre personagens. Em "Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra" e no brasileiro "O Homem que Copiava", por exemplo, há uso mais sutil. No primeiro, a protagonista Elizabeth (Keira Knightley) é sequestrada pelo capitão do navio, que a obriga a vestir-se para ele e ameaça entregá-la para os homens da tripulação - até que ela é salva por Will (Orlando Bloom).

No segundo, o padrasto da personagem de Leandra Leal a espiona pelo buraco da fechadura - essa é uma das únicas participações dele na história, mas já é suficiente para caracterizá-lo como um homem mau - em contraponto ao homem bom (o protagonista de Lázaro Ramos) que é responsável por tirá-la dessa situação.

Assim, o recurso lembra o uso das “ manic pixie dream girl”, cuja função é ser um apoio para o crescimento do protagonista masculino, servindo como catarse para o desenvolvimento dele. Aqui, na narrativa do estupro, funciona como ferramenta para afirmar coragem e caráter.

Não só em Hollywood os exemplos são diversos, a ficção brasileira também tem seus representantes. Recentemente, em “O Outro Lado do Paraíso”, a protagonista Clara (Bianca Bin) foi estuprada pelo marido na noite do casamento – a cena aconteceu na primeira semana da novela e foi ponto importante para caracterizar o personagem Gael (Sérgio Guizé) como vilão.

Banalização e distanciamento da vida real

Entre os principais riscos do exagero no uso desse recurso é fazer a violência parecer menos chocante e, assim, tornar as pessoas cada vez menos sensíveis. A lógica é simples: ser exposto a uma situação (qualquer que seja) muitas e muitas vezes faz com que ela entre em um modo “automático” e que, com o tempo, deixemos de prestar atenção.

“Não é que isso vá tornar o estupro e o abuso banais, mas criar o hábito de ver cenas assim tantas vezes pode mudar nossa conexão emocional com esse problema na vida real”, pontua Lisa. A pesquisadora comenta que, em muitas das histórias em que essa narrativa é utilizada, existe uma grande comoção de todos que estão em volta – polícia, conhecidos, parceiros, família.

Basta olhar para os episódios de, por exemplo, "Criminal Minds ou “Law & Order: Special Victims Units" - em lista divulgada no IMDb, "SVU" tem mais de 30 episódios sobre casos de estupro (sem contar os casos em que o abuso era parte secundária) nas primeiras seis temporadas.

A realidade de mulheres que são vítimas de violência, no entanto, não é nada parecida. “Apesar de um estupro receber muita atenção em ficções, na vida real muitas vezes esse crime não terá solução alguma, muito menos tanta disposição e recurso para investigações”, ressalta a pesquisadora.

A indústria

A falta de representatividade é um problema em qualquer esfera – se faltam pessoas de determinados grupos vai faltar também a inclusão (ao menos de forma mais sensível e honesta). Não é diferente com a indústria do cinema.

Em pesquisa realizada pela cineasta sueca Ellen Tejle, autora do ‘A-List’, projeto que tem como objetivo aumentar a representatividade no cinema, apenas 7% dos cargos de direção em filmes estão com mulheres - em Hollywood, maior pólo do entretenimento, apenas 4% dos filmes têm diretoras.

Além disso, outro dado assustador indica como a cultura sexista persiste e influencia não só atrás das câmeras, como também nas telas: apenas 30% do total de personagens importantes de filmes é composto por mulheres.

Esse número baixo se reflete também no tipo de roteiro que chega às telas. É claro que não há um único fator determinante, mas a falta de mulheres nesse posto ajuda a perpetuar visões padronizadas – que vêm geralmente de homens.

Para Lisa, o gênero não faria com que o recurso do estupro deixasse de ser usado, mas, pelo menos, apareceria de forma diferente. “Nas poucas séries em que as roteiristas eram mulheres, havia pelo menos um ângulo ou perspectiva diferente, geralmente mais empática à experiência e ponto de vista da vítima”, afirma.

Humanização de personagens

Além de dar “superpoderes” às mulheres na ficção, a narrativa do abuso também pode se tornar uma ferramenta para “humanizar” personagens com menos apelo. “É como se mostrar a vitimização justificasse ou ajudasse a compreender suas motivações”, explica Lisa.

Em produções recentes, duas personagens marcantes podem servir como exemplos desse uso. Na série “House of Cards”, o uso desse recurso é feito de forma interessante porque praticamente explica ao público qual é o motivo.

Na 2ª temporada, Claire Underwood (Robin Wright) se vê obrigada a dar explicações públicas sobre um aborto que fez no passado. Ela sabe que os motivos reais não seriam aceitos, então usa um estupro como “justificativa”.

Na trama, Claire e Frank Underwood (Kevin Spacey) optam pelo aborto porque a gravidez aconteceu bem no meio de uma campanha política e esta era a prioridade. Ao público, Claire diz que foi estuprada por um ex-namorado e por isso decidiu abortar.

A partir daí, é o estupro que se torna notícia e não mais o aborto. Ao contar a história traumática (que realmente aconteceu em outro momento da narrativa), Claire ganha não só empatia, mas também é “perdoada”– o que, sabemos, seria bastante improvável em outras circunstâncias, na qual a atitude teria muito mais chances de ser condenável.

Cersei Lannister (Lena Headey), de “Game of Thrones”, também vai fundo nesse caminho. Apesar do perfil inquestionável de vilã, a personagem ganha muito mais engajamento por conta de sua trajetória cheia de tragédias – especialmente sexuais. Humilhada e abusada constantemente (pelo marido, inimigos, aliadas políticos, entre outros), Cersei ressurge sempre mais forte e mais dura.

Apesar dos papéis diferentes, as duas são personagens a princípio pouco carismáticas, ambiciosas e sem escrúpulos, difíceis de causar qualquer identificação. Nos dois casos, é o trauma da violência que torna suas personalidades e motivações (ainda que ruins) mais compreensíveis.

Mudanças no perfil da heroína nos cinemas

No encontro “Mulheres no Cinema”, promovido pela revista Variety, a diretora e atriz vencedora do Oscar Jodie Foster (“O Silêncio dos Inocentes”) ressaltou que o uso dessa narrativa também incomoda as mulheres que fazem parte da indústria.

“Uma das coisas que mais me irritava era que toda vez que roteiristas homens precisavam de motivação para uma mulher, havia um estupro. Eu me perguntava por que ela era triste, foi estuprada. Por que tinha problemas com o chefe? Foi estuprada. Estava em todo filme. Se você procurasse por uma motivação era sempre o estupro. Por algum motivo, os homens viam como algo incrivelmente dramático. E é muito fácil”, afirmou.

Jodie é diretora de alguns episódios de “Orange is the New Black” – uma das produções que, centrada em um elenco feminino, traz diferentes tipos de histórias para cada uma delas e prova que, não só o abuso, mas uma série de outras motivações constrói personagens convincentes e carismáticas.

No comando de outras produções de sucesso recentemente, como a série premiada no Emmy “Big Little Lies” e o longa “Garota Exemplar”,  Reese Witherspoon também faz parte de uma nova leva de mulheres atrás das câmeras. “Temos mais de 25 filmes e programas de televisão em desenvolvimento, com diferentes tipos de mulheres nos papéis principais”, disse em discurso no prêmio “Women of The Year”, da revista Glamour.

Assim, a produtora faz um trabalho essencial para que as personagens femininas ganhem cada vez mais profundidade. “Temos astronautas, soldados, cientistas. Elas não são só boas ou más. São fortes, persistentes, perigosas e vencedoras, como as mulheres que conhecemos todos os dias na vida real”, pontuou Reese.

Outras personagens recentes como Furiosa em “Mad Max: Estrada da Fúria”, Katniss na franquia “Jogos Vorazes”, Arya em “Game of Thrones”, Shoshanna em “Bastardos Inglórios” e outros títulos trazem personagens femininas com todo tipo de motivação – e mais, elas extrapolam a vida pessoal de cada uma delas e são heroicas para o mundo.

“Reduzir a existência de uma pessoa ao papel vítima é muito problemático. Existem muitos eventos na vida de uma mulher que a motivam e formam sua personalidade”, conclui Lisa.

Mulheres no cinema

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